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Até que ponto o amor materno e o instinto maternal são inerentes a você e como podem influenciar sua experiência como mãe ?

Universidade de Oxford publicou um estudo que esclarece a descoberta de uma região do cérebro responsável pelo instinto maternal. 

Ele seria mais um dos nossos sentidos, como o olfato, a audição, o tato, o paladar e visão; porém mais sutil. 

Mas existe uma diferença entre o instinto maternal e o amor materno, enquanto um é inerente à natureza feminina o outro precisou ser desenvolvido pelas necessidades sociais ao longo da história.

Continue a leitura para descobrir:

  • Se o instinto maternal realmente existe ou se é algo inventado para justificar os comportamentos da mulher após se tornar mãe.
  • Se a mulher já nasce com o instinto maternal aflorado.
  • Como as mudanças culturais ao longo dos séculos influenciaram a evolução do amor materno.
  • De que forma a teoria da evolução influencia sua experiência como mãe.
  • Se o amor materno é natural para todas as mulheres.
  • Como as necessidades sociais em determinada época foram essenciais para o surgimento do conceito de amor materno.
  • Se realmente existe a maneira ideal de ser uma “boa mãe”.
  • O que significa ser uma “mãe suficientemente boa” e como a cobrança para alcançar esse padrão torna seu maternar difícil e repleto de culpa.
Mulher grávida sentada na janela, enquanto abraça e toca sua barriga.
Mulher grávida sentada na janela, enquanto abraça e toca sua barriga.

O instinto maternal existe ou é algo inventado para justificar os comportamentos da mulher após se tornar mãe? 

Amor maternal é o carinho, um vínculo amoroso que se intensifica à medida que o bebê nasce e o convívio acontece. 

Já o instinto maternal tem a ver com você querer proteger e suprir a necessidade do seu bebê. 

Como, por exemplo, sentir um impulso e sair correndo para salvar a vida do seu filho e, tendo em vista este objetivo, fazer tudo o que for preciso para mantê-lo seguro. Funciona nas mães humanas da mesma forma que nos animais.

O instinto maternal revela, através dos seus atos de cuidado como mãe, um pacto, um compromisso em que um ser mais capacitado ou evoluído presta auxílio a um outro em estágio de aprendizagem.

A mulher já nasce com instinto materno aflorado?

Seu corpo é biologicamente programado para liberar hormônios no pós-parto essenciais para a sensação de bem-estar e para sua disposição para cuidar do seu bebê. 

Por isso, quanto mais distante do que é fisiológico for o parto, mais difícil será para o seu corpo colocar seu instinto materno entrar em ação.

Os hormônios essenciais para despertar sua relação de cuidado com seu bebê são: Ocitocina (hoje também conhecida como hormônio do amor), somado a  progesterona, estrogênio e a prolactina que tem a função de provocar um misto de sensação de bem-estar e disposição para cuidar. 

Como as mudanças culturais ao longo dos séculos influenciaram a evolução do amor materno.

Existem muitas ideias e teorias que têm como objetivo fazer você entender a transformação e evolução do amor materno ao longo dos séculos, além das mudanças culturais desde o século XVIII.

Teoria da evolução, a etologia.

Essa teoria mostra que o bipedismo foi resultado de mudanças genéticas que possibilitaram um modo de locomoção mais eficiente para a sobrevivência. 

Mas uma das coisas que ocorreram para nos transformarmos em bípedes foi a diminuição do tempo gestacional, visto que com um tempo gestacional maior o bebê não conseguiria passar pela bacia materna, resultando na morte da mãe e do filho. 

Desse modo, o bebê seria prematuro e consequentemente mais frágil, resultando na origem do apego nas relações parentais, assim como no desenvolvimento da instituição familiar.

Em função dessa fragilidade eram necessários maiores cuidados parentais para garantir a sobrevivência da criança. 

No mais, o leite fraco da mãe exigiria uma amamentação contínua e sua relação constante com o bebê seria responsável pela formação do vínculo afetivo, atualmente chamado de teoria da exterogestação.

O amor materno é natural para todas as mulheres?

Elisabeth Badinter é uma das principais autoras quando se fala em amor materno, pois em 1980 ela lançou o livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno”.

Este livro vai ao encontro do construtivismo na medida em que a autora considera que o vínculo afetivo estabelecido entre mãe e bebê não é natural, mas construído. 

A autora adverte que o amor materno foi por tanto tempo considerado um instinto que fica difícil compreendê-lo como não fazendo parte da natureza de toda mulher.

Elisabeth Badinter (1980) mostrou que não é apenas o amor que faz com que a mulher cumpra seus “deveres maternais”. 

Para ela, os valores sociais, religiosos, econômicos e culturais são variáveis fundamentais para moldar nossos comportamentos e, consequentemente, o amor materno. 

Segundo Badinter o amor materno, “é em função das necessidades e dos valores dominantes de uma sociedade que se determinam os papéis respectivos do pai, da mãe e do filho” (p. 23). 

Um pouco de história:

No século XVIII crianças eram vistas como estorvos e os pais as tratavam com indiferença e acreditavam que isso os faria crescer e serem bons adultos. 

As mães não amamentavam, usavam amas de leite. 

A Taxa de mortalidade infantil era extremamente alta e os adultos não sofriam por isso. 

Você como mãe consegue imaginar uma realidade em que o abandono materno era visto como “para o bem da criança”?

Nessa época isso acontecia porque as crianças eram vistas como mini adultas e não existia ainda o apego das mães com seus bebês.

A necessidade social e as mudanças na relação mãe e bebê no século XVIII.

Conforme os estudos de Badinter (1980), a partir de 1760 a imagem da mãe e sua importância nos cuidados com os filhos passaram a ser valorizadas, já que com a alta taxa de mortalidade infantil iniciou-se uma preocupação com a futura mão de obra.

A partir desse momento o amor materno foi exaltado como um valor natural e social indispensável para a sociedade.

Toda essa transformação foi baseada em 3 discursos:

  1. Diminuição populacional que resultaria em menos mão de obra e por isso menos riqueza. 

Ao mesmo tempo, a taxa de mortalidade era alta justamente pelas crianças serem amamentadas pelas amas de leite.

  1. Filosofia da igualdade e da felicidade. 

A igualdade era sedutora, pois dava um status que a mulher não tinha e diferenciava o tratamento com as crianças. 

A felicidade passava a ser defendida como essencial e coletiva, sendo a família  o âmbito perfeito para difundi-la. 

  1. A responsabilidade da função materna, que era positiva para as mulheres que passavam a serem veneradas pela importância de serem responsáveis pela educação da criança.                                                                                  

Além dos temores religiosos e também com a obrigatoriedade médica em cima do aleitamento materno para evitar a mortalidade infantil.

O surgimento do amor materno

Rousseau se tornou um fator determinante para essas mudanças ao estabelecer em pleno século XVIII a ligação entre a maternidade e a moralidade.

Isso decorreu do romance que apresentava como forma de o homem continuar bom em uma sociedade corrupta e nele determinou que os meninos deveriam ser criados para os saberes científicos, a menina seria destinada ao casamento e à maternidade.

O cenário estava pronto! A maternidade já fazia parte da natureza da mulher e, no final do século XVIII e início do XIX, era possível notar a diferença no tratamento das mães e em sua satisfação em cumprir suas tarefas. 

O aleitamento, os cuidados com a higiene, a presença, a educação e o sacrifício fizeram da mãe negligente de Badinter um protótipo do que seria a “mãe perfeita” e ideal dos nossos tempos.

A partir do fim do século XVIII tornou-se obrigatoriedade ser mãe e seguir os cuidados determinados (aleitamento, higiene, cuidados, educação, devotamento e felicidade dos filhos).

Existe um manual do que significa ser uma boa mãe?

Já no século XX – as mães foram transformadas nas responsáveis pelo bem-estar físico e emocional dos filhos. 

As mães deixaram de ser as detentoras do saber e este papel foi para as mãos dos especialistas. 

Criou-se um manual ou cartilha de como ser boa mãe, a sociedade te garante que se você seguir estas normas será capaz de expressar seu amor por seus filhos e garantir que se tornem adultos capazes e saudáveis.

Até Freud explicou em teoria a sua influência na forma como você cria seus filhos.

Surge Freud com sua teoria psicanalítica, expressando que você é fruto das suas experiências infantis, desta forma mães que tratam seus filhos inadequadamente, criam filhos com problemas. 

Também na teoria do complexo de édipo, se coloca  a relação entre pais e filhos, como um  papel primordial na constituição do sujeito, onde será estruturada funções fundamentais de um ser.

A criação com apego e a Segunda Guerra Mundial

Na época da Segunda Guerra Mundial as mulheres precisaram trabalhar enquanto os homens estavam na guerra, isso ocasionou que o número de mães que deixavam seus filhos em creches aumentasse consideravelmente.

Bowlby (1953) acreditava que a saúde mental da criança estava associada a uma relação afetuosa entre mãe e filho na qual ambos encontrassem satisfação e felicidade. 

Para que esta relação fosse possível e satisfatória, a presença materna, em tempo integral, era essencial.

A privação materna poderia gerar consequências como distúrbios emocionais e psicológicos, e o vínculo entre mãe e filho era resultado desta constante interação. 

Embora Bowlby acreditasse que este vínculo fosse um instinto, ele defendia que a interação entre o bebê e a mãe seria essencial neste processo. 

Winnicott em 1950, fim do século XX, defendia que a mãe deveria ficar com o bebê em tempo integral, principalmente em seus primeiros anos. 

De acordo com ele a maternidade fazia parte da natureza e que a mulher estava apta para a função e que a mãe deveria ser “suficientemente boa”, caso contrário traria distúrbios psicológicos para a criança.

A mãe suficientemente boa e sua maneira “ideal” de cuidar dos filhos.

Segundo o autor, a “mãe suficientemente boa” se identifica com o bebê e, desse modo, se volta para suas necessidades, protege a criança e se devota a seus cuidados. 

Todas essas transformações a respeito da maternidade e do amor materno geraram consequências na vida das mães desse período. 

Muitas mulheres se orgulhavam da dedicação ao filho e pelo fato de desempenharem o papel de “mãe ideal”. 

Também podiam se gabar de serem as únicas capazes de assumir tal função, porém em outras mulheres foi criado um sentimento de culpa e mal-estar por não atingir o padrão de mãe que acreditavam que seus filhos mereciam.

Você percebe como isso soa familiar?

Ainda hoje você pode sofrer com as imposições dessa época, já que a sociedade, e principalmente você mesma, ainda cobra que a mulher após ser mãe precisa dar conta de tudo.

Como se fosse sua obrigação como mulher e mãe ser a “mulher maravilha”, dar conta da casa, dos filhos, de trabalhar e ainda cumprir todas as suas obrigações sociais. 

Mas já observou, até que ponto você acredita que isso é possível e até que ponto você está vivendo no modo automático das imposições históricas carregadas ao longo do tempo?

Isso pode gerar em você um sentimento de culpa, culpa por não se sentir suficiente, não ser uma boa mãe… Mas não precisa ser assim!

Porque para ser uma boa mãe para seus filhos você precisa fazer o possível dentro da sua realidade, não precisa se basear no que as outras pessoas consideram ser a “mãe ideal”.